O Jardineiro das palavras
Escrito por Pamela Niero em 16 Agosto, 2008
Escritor, professor e jornalista diz que a mídia impediu que a baixa qualidade do ensino de português no país tivesse efeitos ainda mais danosos ao idioma
Deonísio da Silva
Escritores, na imaginação popular, sonham em viver numa espécie de clausura ideal: ler, pensar, criar, escrever em silêncio, em plácida solidão, longe dos ruídos mundanos, se possível poupados dos aflitivos sufocos de dinheiro, das chateações burocráticas e sobretudo das armadilhas da notoriedade - as entrevistas fúteis, os artigos de natureza político-ideológica, os blogs invasivos.
Alguns até conseguem chegar perto desse objetivo, outros há que preferem se expor. É o caso do catarinense Deonísio da Silva, escritor de livros premiados, doutor em Letras pela USP e desde 2003 professor da Universidade Estácio de Sá, no Rio, da qual é vice-reitor de Cultura e coordenador do curso de Letras.
Desde 1975, autor de sete romances, dez livros de contos, quatro infanto-juvenis e dez de ensaios literários, contemplado em 1992 com o Prêmio Internacional Casa de las Américas, juri presidido por José Saramago, com o livro Avante Soldados: para trás (dez edições vendidas, publicado no exterior), ele concilia a vida de escritor com a docência universitária e ativa colaboração na imprensa.
E bota ativa nisso. O escritor, que já cumpriu pena durante a ditadura militar por escrever um texto de ficção num jornal, é eclético: mantém uma coluna sobre etimologia popular na revista Caras enquanto opina com uma contundência incomum, num tom indignado mas temperado por humor, beirando a gozação impiedosa, em sua coluna semanal no site Observatório da Imprensa. Nesta entrevista, Deonísio da Silva ironiza a condição do idioma na literatura e na política, as relações entre o texto da literatura e da universidade com o do jornalismo. E diz que, com a precariedade do ensino do idioma no país, a mídia ganhou um papel forte na expansão da qualidade da escrita no país.
Língua Portuguesa - Um escritor precisa mesmo ter preocupação com o uso que faz do idioma ou pensar nisso é o de menos?
Deonísio da Silva - Acho uma irresponsabilidade o escritor desconhecer sua ferramenta de trabalho. Desde a alfabetização, o que sempre me fascinou não foi a botânica, mas a jardinagem das palavras. Estudo por gosto, por prazer, pela alegria do convívio intelectual com meus pares, infelizmente cada vez mais raros. Em todos os níveis escolares, tive bons professores, mas sempre aprendi melhor sozinho, na relação bunda-cadeira-hora. Nas estantes estão aqueles amigos que jamais te traem, não te vendem por 30 dinheiros.
Como avalia as colunas especializadas em língua portuguesa, na mídia?
Elas refletem o descalabro: tentam dar o que a escola surrupia. É claro que jamais vão conseguir. Esses colunistas são useiros e vezeiros em prescrever, aconselhar, recomendar e às vezes determinar que se escreva desse ou daquele modo. É uma coisa autoritária porque eles não têm autoridade, não são procuradores de ninguém para fazer o que fazem. Chutatis chutandis, estão para os professores de português como os curandeiros para os médicos. Podem até não fazer mal, e às vezes fazem até bem, mas não curam. Antes, apenas se escrevia mal, pois o brasileiro é senhor de uma habilidade verbal impressionante. Mas, agora, a devastação do bom gosto chegou à fala. É preciso observar, entretanto, que há nichos de alta qualidade na mídia, textos escritos por profissionais em cuja competência podemos, afinal, confiar. São boas referências para o ato de escrever e o ato de ler, que são as duas grandes lacunas do brasileiro alfabetizado.
Quando fala em devastação do bom gosto, você pensa, em particular, nas esferas do poder, também?
De fato, senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores nos envergonham. Freqüentemente aludem ao “erário público”, por exemplo. Ocorre que todo erário é público. Faz sentido, porque eles vêem no dinheiro público um “erário privado”. No Executivo, os cargos de confiança, ao dispensarem os concursos, deram licença para matar a língua portuguesa a tecladas, a telefonadas, a internetadas. Enfim, as porradas alcançam a língua pelo celular, pelo computador, por ofícios, por requerimentos, por meio de mensagens etc. Como dizia o escritor Marcos Rey, pode-se entrar numa briga de foice no escuro, mas é preciso saber antes duas coisas: onde ficam a porta e o interruptor.
Faltou falar no Judiciário, não? Lá, o idioma às vezes é ininteligível…
O que mais vemos ali é pura exibição de saber, como se dessem o seguinte aviso à plebe ignara: “Nós escrevemos assim, não somos da laia de vocês”. E surgem, assim, expressões como “alcândor conselho”, que já li numa petição. Quem escreve assim apenas disfarça a própria ignorância sobre o idioma, pois o significado original de “alcândor”, que nos veio do árabe, é “poleiro de ave de rapina”. Houve até o caso de um juiz que mandou recolher um bandido ao “ergástulo público”. E o despacho foi devolvido porque não havia “ergástulo” no município. Havia uma cadeia, mas ninguém sabia que a palavra “cadeia” era sinônimo de “ergástulo”.
Mas não seria nas escolas e também nas universidades onde a língua é mais maltratada ainda?
Sem dúvida, aí estão as pérolas do vestibular, os hieróglifos das dissertações e teses, enfim há muitas evidências do rebaixamento do ensino. A mídia, porém, por tudo espelhar, espelha também a boa qualidade de alguns textos. A mídia consegue impulsionar gente que escreve muito bem, o que cria um padrão para as pessoas que lêem. A imprensa também forma. Não só informa.
Como um escritor, que precisa ter seus livros resenhados, encara os resenhistas e críticos?
A literatura brasileira foi banida da imprensa. Sei que onde estiverem bons profissionais, os livros serão tratados como devem ser, sejam favoráveis ou adversas as críticas. Mas revistas como a Veja oferecem casos desse apagamento real dos livros na mídia.
Há má vontade da mídia com a literatura brasileira?
Acredito que há incompetência. As evidências mostram que no Brasil há muitos incompetentes em postos importantes, vítimas e cúmplices do que lhes acontece. Na mídia, eles se acotovelam e enterram jornais e revistas, patinando nas mesmas tiragens, enquanto nós fazemos a nossa parte, isto é, produzindo novos livros e leitores. Somos o maior mercado editorial da América do Sul. Foram os livros que nos tornaram leitores e depois assinantes de revistas, não o contrário. Eles esqueceram isso? Quando o jornal e a revista são bons, os leitores podem até migrar para a internet, para a edição eletrônica, mas sempre vão procurar o que precisam. E a imprensa precisa dar o que o leitor precisa; ou não precisa, mas quer.
Como você, que transita no meio universitário e no jornalístico, vê jornalistas acusarem os acadêmicos de pomposidade, enquanto estes qualificam de superficiais os textos jornalísticos?
Por norma, na imprensa se escreve melhor do que na universidade. Por quê? Porque pior do que o analfabeto humilde é o analfabeto arrogante. O primeiro tem cura, o segundo morre daquilo! O problema é que, em todas as profissões, a dieta de leitura é paupérrima. Médicos, professores, jornalistas, engenheiros, juízes, economistas, quase todos lêem muito pouco. O Brasil é o segundo mercado editorial das Américas porque, como no caso da renda, está tudo concentrado, tudo dominado.
Precisamos de um MST para os sem-livros! Outro dia, li que (o porta-voz do MST) João Pedro Stédile “comemorava” o massacre dos sem-terra, ocorrido em Eldorado de Carajás. Achei que o jornalista estava sacaneando o Stédile. Não estava e, pior, no texto que o próprio jornalista escrevia, ele também “comemorava”…
Como foi ser preso por causa de um texto?
Foi no meu primeiro texto, publicado num pequeno jornal. Era um texto de ficção. Fui condenado a dois anos de prisão, cumpridos sob sursis, isto é, em liberdade vigiada, condicional, incurso na Lei de Segurança Nacional e Lei de Imprensa. Perdi a cátedra de língua portuguesa no Colégio Mário de Andrade, no Paraná, onde ensinava. Quando o MEC premiou meu livro de estréia, Exposição de Motivos, em 1977, como melhor livro de contos do ano anterior, eu estava cumprindo pena. Como dizia Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes.
Você pediu indenização como vítima da ditadura?
Eu não estava investindo num pecúlio, eu lutava por idéias que ainda não foram implantadas e para mim não será surpresa se as perseguições recomeçarem. Respeito esses intelectuais que aí estão pedindo anistia, ressarcimentos e pensões, mas, como gosto da conversa clara, acho isso uma pouca-vergonha. Que pelo menos não sejam traídos os mortos, pois o preço dessas compensações me cheira a 30 dinheiros! Jamais pedirei ou aceitarei qualquer pagamento em dinheiro pelo que me fizeram. Posso valer pouco, mas, para me comprar, eles jamais terão o suficiente! Não vendo minha alma ao diabo!
Fonte: Revista Língua Portuguesa
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11569
Amigos,
não precisamos comentar.
É deprimente cada palavra escrita….
Pamela
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Evento
Escrito por Pamela Niero em 13 Agosto, 2008
“ENTRE A DIVERSIDADE E A IDENTIDADE: ENCONTROS COM A LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA”
A partir da década de 1980, a Literatura Brasileira incorpora, com maior ou menor grau de evidência, temáticas relativas à questão da diversidade, resultando em obras que procuraram dar voz – no âmbito da representação literária – aos diversos extratos da sociedade. Desse modo, observa-se uma profusão de narrativas em que o negro, a mulher, o marginal, o homossexual, enfim toda uma variada gama de representantes de camadas sociais tradicionalmente vitimizadas por processos discriminatórios e excludentes passam a ocupar um espaço de destaque na cena literária nacional. É, aliás, nesse arcabouço ideológico que se inscreve uma nova vertente da literatura brasileira, que não apenas tematiza os extratos sociais acima referidos, mas procura torná-los componentes centrais da narratividade contemporânea, dando-lhes um papel de destaque em nosso universo ficcional e dotando-os de um olhar crítico que destoa da média dos personagens historicamente consagrados pela prosa de ficção brasileira. Vivendo uma espécie de deslocamento espacial, conseqüência mais palpável do deslocamento social assinalado, tais personagens personificam uma identidade dramaticamente híbrida, em que a idéia de descentramento acaba por promover ininterruptos deslocamentos estruturais, dando origem aos conceitos permeáveis e interagentes de descontinuidade e fragmentação, tudo isso plasmado numa representação estética em que o espaço urbano revela-se a tônica da narrativa ficcional. Instaura-se, desse modo, uma espécie singular de realismo (sub)urbano, o qual rompe com a linearidade do realismo tout court e que, desde o advento do romance modernista, procura subverter as formas tradicionais de constituição espacial, desconstruindo a percepção unidirecional de homem e do mundo que ele habita e instaurando o diverso, o oblíquo, o instável no âmbito da composição narrativa.
Objetivos:
O objetivo principal do evento é trabalhar os aspectos sociais, lingüísticos e estéticos que fundamentam e conformam a produção recente da literatura brasileira, destacando seus relacionamentos com os processos midiáticos e outros modos de composição, além da institucionalização do sistema literário brasileiro. Tendo como parâmetros os conceitos de diversidade e identidade, pretende-se especificamente: analisar as atuais tendências da Teoria Literária, a partir do conceito de pós-modernidade e refletir acerca da inserção crítica da Literatura Brasileira Contemporânea nesse contexto; relacionar, a partir de uma perspectiva crítica, a produção literária contemporânea e os suportes por meio dos quais a literatura é veiculada, formando assim um sistema literário; desenvolver uma percepção ampla da produção literária brasileira contemporânea, relacionando literatura e processos histórico-culturais contemporâneos (globalização, indústria cultural etc.); trabalhar a análise e crítica de obras literárias brasileiras contemporâneas, desenvolvendo habilidades analíticas voltadas para a relação entre os diversos suportes de veiculação da obra literária (livro, cinema, televisão, teatro etc.); e, finalmente, discutir a relação entre a literatura brasileira contemporânea, a historiografia literária e os processos de midiatização da cultura letrada.
Coordenação acadêmica: Profª Rita Couto / Prof. Murilo Jardelino / Prof. Mauricio Silva (Literatura / UNINOVE)
Informações:
Local: Fundação Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 (ao lado do terminal Barra funda)
Telefone: 11 3823.4600
Website: www.memorial.sp.gov.br
Datas: 30 de agosto a 27 de setembro de 2008 (5 aulas, aos sábados)
Horário: das 10 às 12 horas (Carga horária: 10 horas-aula)
Taxa de Inscrição: R$ 40,00
Conteúdo Programático
30/08 - Literatura Brasileira Contemporânea e Cinema.
Palestrantes: Fernando Bonassi e Marçal Aquino / Mediador: Enio Moraes Júnior
06/09 - Literatura Brasileira Contemporânea e Cidade.
Palestrantes: Luiz Ruffato e Marcelino Freire / Mediador: Maurício Silva
13/09 - Literatura Brasileira Contemporânea e Criança.
Palestrantes: Heloísa Prieto e Ricardo Azevedo / Mediador: Naílton Matos
20/09 - Literatura Brasileira Contemporânea e Psicologia.
Palestrantes: Paulo Bloise e Nelson de Oliveira / Mediador: Edner Morelli
27/09 - Literatura Brasileira Contemporânea e Absurdo.
Palestrantes: Joca Reiners Terron e Xico Sá / Mediadora: Sônia Melchiori G. Gatto
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O fiador do texto
Escrito por Pamela Niero em 5 Julho, 2008
Atualmente escrevo minha monografia sobre a linguagem persuasiva do jornal Folha de São Paulo. Por isso tenho lido muito sobre Ethos e a importância de criar um texto confiável. Neste artigo, tentarei resumir de forma clara e concisa o que é ethos.
Gosto muito de uma frase de Goebbels, ele dizia que uma mentira repetida várias vezes era mais eficaz que uma verdade dita uma única vez. O discurso não precisa conter a verdade, mas se bem articulado, ele pode conquistar o leitor. É por meio da credibilidade do texto que ganhamos o leitor, persuadimos e vendemos uma idéia (mesmo que falsa). Conseguimos atingir essa credibilidade pelo ethos.
Ethos, como afirma Barthes (apud AMOSSY, 2005, p. 70), “são traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão”
A forma de tornar o texto confiável é através de escolhas léxicas, das adjetivações, nominalizações, dos verbos, da pontuação e das construções sintáticas. Essas escolhas irão construir uma voz em harmônia com o princípio organizador do estatuto dos enunciadores. A voz ira legitimar o texto, por meio de uma imagem que o enunciador criará de si, levando o leitor a identificar-se a fala do enunciador e incorporar a mesma visão.
É importante ressaltar que enunciador não é o mesmo que narrador. “O enunciador é o destinador não expresso na enunciação; enunciatário é o destinatário subentendido da enunciação” (FIORIN,2008). É o enunciatário quem irá guiar as escolhas do enunciador, pois é a partir da identificação do ouvinte com os valores construídos pelo discurso que a palavra ganha poder.
O ethos nos permite construir características psicossociais: “A leitura faz emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito” (MAINGUENEAU, 2002, p. 98). O fiador do texto é a representação do caráter e da corporalidade de quem constrói discurso. Ele se mostra sem dizer e podemos identifica-lo pelas escolhas, posições estéticas e os gêneros literários que irão modelar o ethos.
Bibliografia
AMOSSY, R. (org.). “Imagens de si no discurso: a construção do ethos“. São Paulo: Contexto, 2005
FIORIN, José Luiz. “A multiplicação dos ethe: A questão da heteronímia“. In MOTTA, Ana Raquel, SALGADO, Luciana (Org.) “Ethos discursivo”. São Paulo: Contexto, 2008.
MAINGUENEAU, D. “Análise de textos de comunicação”. 2 ed. Campinas: Cortez, 2002
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Ajuda
Escrito por Pamela Niero em 5 Julho, 2008
Bem vindo!
Tutorial para utilização do
Grupo de lingüística no MSN
Sobre o grupo
O grupo tem como objetivo unir estudantes, pesquisadores, professores e interessados por lingüística, independente da língua estudada.
O sistema utilizado na criação do grupo está disponível no www.messengergroupchat.com.
Como participar
- Windows live messenger
- Adicione o grupo no seu msn: mgroup81187@hotmail.com
- Envie um pedido de “atenção” (send a nudge)
- Aceite o convite para “iniciar um atividade”
- Pronto! Agora é só conversar! =D
- Outros messengers
- Utilize a lista de comandos para saber quem está online!
Lista de comandos
Abrir painel com usuários, digite: /open ou /send a nudge
Listar as últimas 100 mensagens, digite: /view
Listar todos os membros, digite: /users
Listar os membros online: /who
Verificar seu apelido: /me
Alterar apelido: /nick <novo apelido>
Bloquear por 120 minutos: /b (*Para desbloquear, digite novamente /b)
Bloquear por tempo determinado: /b <tempo de bloqueio> (Exemplo: Para bloquear por 20 minutos, digite: /b 20 )
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Diferença entre lingüistas e gramáticos
Escrito por Pamela Niero em 5 Julho, 2008
A Diferença entre lingüistas e gramáticos é mais ampla que o debate sobre noções de “certo” e “errado”
Por Sírio Possenti
Quando alguém informa que é lingüista causa espanto. Não sei se maior do que quem informa ser matemático ou físico, porque muita gente não tem idéia do que um matemático estuda ou sobre o que escreve (vai a congressos apresentar meios novos de decorar a tabuada ou formas bem-humoradas de aprendizado?). No entanto, é fácil entender o que faz um lingüista. Vou expor duas diferenças básicas entre o que fazem um lingüista e um gramático, na (quase vã) esperança de esclarecer alguma coisa.
A primeira é que o lingüista não caracteriza fatos lingüísticos em termos de certo ou errado, nem a partir da autoridade de escritores ou da tradição. Classifica fatos como populares, regionais, cultos, literários etc., não como certos ou errados.
Um lingüista observa fatos e tenta descrevê-los e explicá-los. E, como disse Saussure, tudo para ele é “matéria”, o que significa que leva em consideração qualquer manifestação lingüística (de analfabetos, crianças; antigas, atuais etc.), e não só as dos falantes cultos de um período vagamente definido. Para ele, a correção “lingüística” é um valor social, que leva em conta, mas como questão social e submetida a regras de um tipo especial, similares às que governam a etiqueta.
Um gramático também observa e organiza fatos, claro, mas ele os coleta em textos definidos como “bons”. E, mesmo neles, garimpa só o que serve a certa tradição, que é em parte gramatical e em parte associada à elegância, com base na autoridade dos escritores. Já o lingüista procede à maneira dos físicos ou dos botânicos (entre outros): eles não corrigem as plantas ou as fases da Lua… A analogia vai adiante: um botânico até pode assessorar um paisagista (uma espécie de gramático): este define critérios para colocar ou não uma planta numa praça, e aquele poderá dizer se ela sobreviverá e em quais condições. Mas um botânico nunca dirá que uma planta é errada…
Uma diferença que decorre desta é que o lingüista não só não diz que certas construções não são erros. Mostra que aí funcionam outras regras, e faz isso com base em fatos adequadamente observados e sistematicamente analisados.
Concordâncias
Um exemplo, simples, é o da concordância nominal: um gramático considera simplesmente um erro dizer “os livro”. Um lingüista dirá (e provará) que esta é uma variante da regra de concordância e pode ser encontrada na língua desde sempre, até em documentos bem antigos.
Mais: mostra que a mesma regra ocorre, por exemplo, em francês (o que ainda se escreve les hommes é, de fato, lez om), o que até lhe permite especulações sobre derivas similares em línguas da mesma família. O lingüista mostra que uma variedade da língua caracterizada por tal concordância, entre outros fatos, faz isso segundo um sistema e, portanto, se trata de uma construção regular, isto é, regida por uma regra, no sentido gramatical da palavra. Em resumo: ninguém fala de qualquer jeito.
Mas lingüista, ao contrário do que se diz, não é gente que incentiva o uso de construções que a sociedade considera erradas - ou as defende. Especialmente, por duas razões:
a) porque a regulação social que impõe uma dada forma da língua em certos espaços também é um fato (como a gíria ou o calão);
b) se não tem preconceito contra falas populares, por que o teria contra formas eruditas?
Decorrência dessas posições é que nenhum capítulo sobre vícios de linguagem faria parte da gramática de um lingüista: o regionalismo é só um fato, a cacofonia idem, a redundância é propriedade óbvia de toda língua, como o é a ambigüidade; o mesmo se diga da gíria, do calão ou do jargão: são fatos, que se explicam tanto estrutural quanto sociologicamente.
Deles se pode gostar ou não (o que também se pode explicar), mas isso não tem a ver com o fato empírico de que são fatos da língua (perdoem as redundâncias).
Um lingüista - porque considera os fatos, não só as avaliações sociais que definem o que é correto e que mudam com a história - aprende que o que hoje se considera um erro pode tornar-se amanhã uma forma correta. E pelos mesmos critérios que consagraram as outras! Mudanças históricas (as de gosto, inclusive) podem ser elencadas. Basta verificar como reescreveríamos (e reescrevemos) a Carta de Caminha (”Vossa Alteza será de mim mui bem servida”) ou Os Lusíadas (”O mar que dos feos focas se navega”).
Prática de análise
A segunda diferença entre lingüistas e gramáticos tem a ver com sua prática de análise, em especial nos quesitos coerência e explicitude. Vou dar um exemplo aqui, mas é fácil encontrar muitos (ver quadro), desde que nos dispuséssemos a ler análises gramaticais… de lingüistas. Em Lições de Português pela Análise Sintática, de Evanildo Bechara, pode-se ler sobre a noção de adjunto:
“As expressões que giram em torno do núcleo do sujeito (ou de qualquer outro termo expresso por um substantivo) para caracterizá-lo convenientemente recebem o nome de adjuntos adnominais”.
Assim, teremos, segundo ele, aplicando o princípio a “O maior tesouro da vida é a esperança e confiança em Deus”:
Sujeito: O maior tesouro da vida;
Núcleo do sujeito: tesouro;
Adjuntos adnominais do núcleo do sujeito: o, maior, da vida.
Um lingüista faria outra análise. Não diria, por exemplo, que todos os adjuntos estão no mesmo grau hierárquico, pois considera que esta expressão tem uma construção interna não linear. Proporia hipótese sobre a constituição desse sintagma, que explicitaria, por exemplo, que “o” não é adjunto de “tesouro”, mas de “maior tesouro” (talvez de “maior tesouro da vida”) etc.
Não basta uma lista de adjuntos para fazer uma análise sintática da seqüência. Seria como se um botânico não considerasse que um galho sai de outro galho que sai de outro galho, ou se um astrônomo não considerasse que a Lua gira em torno da Terra “antes” de fazê-lo em torno do Sol.
Diferenças
Outro exemplo: do sintagma “carne bovina moída congelada”, não basta dizer que “carne” é o núcleo e os adjetivos são seus adjuntos. É preciso explicitar que “congelada” é adjunto de “carne bovina moída”; que “moída” é adjunto de “carne bovina”; e “bovina” é um adjunto só de “carne”.
Vê-se assim que as diferenças entre gramáticos e lingüistas não se restringem à concepção de erro. Na verdade, a diferente consideração do que seja um fato da língua não se resume à inclusão no corpus de análise de dados legítimos. Diz respeito à caracterização dos fatos, a sua observação mais acurada. Para fazer outra analogia: trata-se de diferença similar à de usar telescópios para verificar como é a superfície da Lua ou dar-se por satisfeito com o que dizem os astrônomos antigos.
É preciso não só distinguir gramáticos de lingüistas (e entender suas diferentes funções profissionais), mas distinguir gramáticos de autores de manuais do tipo “não erre mais”. Esses manuais, independentemente de serem úteis ou necessários, não são gramáticas, e seus autores raramente fazem análises, contentando-se em copiar dicionários e (pedaços de) gramáticas, dos quais acabam transmitindo imagem equivocada, porque simplificada.
Análise de um período composto
Um exemplo de como uma gramática pode ser mais coerente, ou lida mais coerentemente, é a análise do período composto feita por Mário Alberto Perini, em Princípios de Lingüística Descritiva (Parábola, 2006). Seqüências como “A menina disse que o cachorro está doente” costumam ser analisadas como período composto de duas orações: “a menina disse” e “que o cachorro está doente”. Perini opõe a essa análise uma outra, coerente com definições das próprias gramáticas. Uma gramática não diria que “a menina disse” é oração, porque o verbo “dizer” exige objeto direto. Portanto, essa não pode ser oração no período, muito menos sua principal. Perini propõe o óbvio: que a oração principal inclua o objeto direto. Pode ser que o leitor estranhe, mas é isso mesmo. A oração principal inclui a subordinada e o elemento “que”, que a introduz. Ou seja: é todo o período.
A subordinada não pode ser “que o cachorro está doente” pois “que o cachorro está doente” não é oração (ninguém diz “que o cachorro está doente”). “O cachorro está doente” é oração, é seqüência que pode ser ouvida e tem sentido. Portanto, essa é a oração subordinada. Não sendo oração, “que o cachorro está doente” deve ser outra coisa. Perini propõe que seja considerada um sintagma nominal, que inclui uma oração (substantiva), já que pode funcionar como nome: ser sujeito, objeto, complemento nominal. É simples coerência.
Fonte: Revista Língua Portuguesa, edição 32. 06/2008. Disponível em: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11543
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